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Rapinário

 

 

OS DESASTRES DA INTERAÇÃO NA VIDA CONTEMPORÂNEA


(Renato Suttana)


A presença ubíqua das redes sociais e da internet na vida das pessoas tem produzido fenômenos. Um deles é o excesso de interações entre indivíduos, com o proporcional volume de ilusões que acarreta. Há quem veja nisso um aspecto positivo da modernidade, a provar que as sociedades têm se tornado mais comunicativas e democráticas do que eram no passado. Porém fico a me perguntar se tais progressos — palavra contra a qual é proibido levantar objeções — não acontecem em detrimento de faculdades humanas mais indispensáveis à manutenção da vida. Penso na capacidade, exercitada desde a infância e ensinada por nossos pais e professores, de suportar a solidão e o isolamento e, sobretudo, de velar pelo próprio direito à introversão recolhida, — como se fazia até há pouco tempo ou num passado de que já não nos lembramos. Nos dias correntes, a introversão vai sendo aos poucos substituída, em cada um, por um sentimento de urgência infundada ou uma pressa insofrida de realizar e se ver realizando. A projeção de si no espelho do espaço público (se é que se trata de um espelho) — da qual a mania de opinião e o exibicionismo demonstrado nas redes sociais dão testemunho — torna-se regra. O resultado é um crescente afastamento de consciência em relação a si própria.

Qual a vantagem de nos tornarmos afoitos, tagarelas e alardeadores cotidianos de imagens e ventos? Que necessidade temos de estar sempre a expor publicamente os diversos aspectos da nossa vida particular, inclusive os referentes à intimidade e ao recato, e de o fazer em locais onde não podemos dominar as consequências do ato? Não é uma pergunta de moralista. Se o efeito é a perda, cada vez mais acentuada, dessa (tão a custo adquirida) ancestral capacidade de cerimônia e autocontenção que caracteriza positivamente a personalidade, por que então nos exibimos? Nota-se por toda parte o sentimento de urgência impulsionando os comportamentos. A foiteza se afirma, os dias se aceleram, os instantes se encurtam e as horas se tornam breves e inócuas. Todas as coisas querem ser vistas no momento — incluindo a nossa fome, a intimidade das nossas alcovas, acidentes que sofremos e as nossas depressões —, que, todas, pedem para ser fotografadas e dadas prontamente a ver em veículos públicos de comunicação. Querem também que um público as aprecie, talvez esse mesmo cujas feições não imaginamos. Gostamos de ir às cegas, eis um fato.  E não se trata apenas de aparecer para os amigos, os vizinhos ou os familiares: trata-se de romper fronteiras e lançar-se ao mundo grande, muitas vezes para desbravamentos perigosos, de consequências incertas.

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As câmeras dos telefones celulares funcionam a todo vapor, porém não trabalham em vão. Capturam roupas, comidas, lugares, prestam contas do cotidiano. O público as inspeciona, sopesando os hábitos, e inveja as nossas viagens, ou comenta as festas que promovemos ou que frequentamos, apreciando aniversários de filhos e netos, ou então aquilata o valor do emprego em que acabamos de ser admitidos. Quem nunca postou a foto do seu filhinho de um ano em rede social, mormente quando a comemoração custou uma fortuna? Até há pouco (se o passado servir como parâmetro de comparação — coisa de que duvidamos), tal situação era inconcebível. Primeiro, porque não tínhamos onde publicar imagens de nossa intimidade, a não ser em jornais e revistas — que nem sempre estavam dispostos a acolhê-las. Tocávamos a vida como podíamos, éramos apenas uns joões-ninguém ocupados, à procura de comida, casa, saúde e afeições. Quando chegávamos a ler nosso nome numa folha de província (como se chamava antigamente), comemorávamos, ou então lamentávamos, se fosse esta a situação. Nossa pretensão à fama raramente ultrapassava os limites da comarca. E não passaria pela cabeça de ninguém a ideia de enviar uma foto do próprio almoço para ser publicada num jornal da capital ou de outro estado: seria tolice e seria dispendioso. Estávamos confinados à insignificância, até porque tornar-se famoso custava caro e era empreitada trabalhosa. Em tal mundo, a pretensão de ter seguidores sequer seria compreendida, ou nos faria chamar a polícia.

Não quer dizer que no passado fôssemos melhores, de modo algum. Éramos talvez piores, por mais tímidos, preconceituosos e tacanhos. Mas éramos menos afoitos, já que o fato de reconhecermos a insignificância nos moderava, limitando os nossos gestos e ressaltando o valor de uso dos nossos corpos e da vida real, em detrimento do comércio desenfreado em que se converte agora o mercado das imagens — um comércio saturado certamente, e universalmente dominado por figuras cuja única credencial à fama é, muitas vezes, o fato de já serem famosas.

Rostos e corpos apareciam em capas de revistas que precisavam ser compradas para serem lidas. Hoje, brotam por toda parte, fixam-se obsessivamente em nossas retinas, tornam-se parte do nosso imaginário e do cotidiano. Se descermos ao inferno, lá estarão esses rostos, a fazer selfies e a oferecer produtos — como se o ideal do supremo Camelô ou do universal Garoto Propaganda invadisse a psique de todos. Esses indivíduos estão aí como avatares de um desejo profundo, desorientador e intoxicante de notoriedade — de uma notoriedade desmedida, que muitos ambicionam como o  seu único propósito na vida. Mas depois cada um se decepciona. Sabemos até onde se pode ir.

Reza-se muito nas redes sociais, agradece-se a Deus, aos orixás e a outros deuses menos conhecidos. Dão-se graças a toda hora por coisas como a aquisição de automóveis, casas, piscinas. Acabou-se de construir o telhado do galinheiro ou um banheiro novo? Jogue-se a foto no Instagram. Cultua-se, assim, e muito, a ação supostamente notável, que é, quase sempre, se vista de perto, enfadonha e despicienda. Mas o verdadeiro culto é mesmo àquela entidade anônima, sonhada, obscura, cujo rosto não se vê e que, a cada passo, transcende o círculo das nossas amizades: o indefectível público, a expandir o seu âmbito para abranger o mundo inteiro (pois as redes sociais da internet são universais e alcançam todos os rincões do planeta e das consciências).

Tornamo-nos pessoas públicas, mesmo sem o sabermos. O ideal do anônimo e do famoso é viralizar. Um homem ou uma mulher e até mesmo as crianças viralizarão, e os gatos não existirão se não forem fotografados e exibidos nas telas dos celulares. Ninguém terá uma identidade se não criar o seu perfil numa rede qualquer — com uma fotografia risonha e um currículo, e isso lhes concederá o direito de ser.

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Nossa vida, porém, é tediosa e precisa ser vivida devagar. Difícil, talvez impossível, principalmente para os que chegaram tarde. E imaginá-la sem as urgências da autoexposição se tornou impossível. É preciso ser belo e bem-sucedido — até o limite do crível. Mas ter o corpo de um atleta de academia não é coisa fácil. O tempo gasto para alcançar esse ideal não compensa os benefícios esperados. Do mesmo modo, também não se pode ser tão belo quanto o fulano que tem milhares de seguidores na rede, custando as cirurgias plásticas o equivalente a tesouros que um mortal comum não poderá pagar. Talvez por isso os atletas e os bonitos (que se tornaram, ao que parece, atletas da beleza e da inveja também) se apressem tanto em se mostrar (que louco desperdiçaria o dom da beleza apolínea sem convertê-lo nuns cifrões?) aquilo que conquistaram. Pedem-se os nossos likes, alardeia-se o aplicativo, suplica-se pelos comentários, mesmo os insignificantes (mas todos são sempre insignificantes) — porque afinal é preciso pagar o investimento.

Giramos em torno de nosso grande umbigo coletivo. Mal enxergamos à nossa volta, porque estamos sempre muito ocupados. As chances não podem ser desperdiçadas, o mundo é um grande cassino de possibilidades. E, quando a oportunidade se apresenta — de aparecermos para nós mesmos como pessoas de importância —, não convém desdenhá-la. A sorte não espera, a fortuna é esquiva. Os antigos a representavam como figura calva, dotada de uma única mecha de cabelos que, ao passar por alguém, era preciso agarrar. Do contrário, o monstro alado fugiria, talvez para sempre (sim, além de calvo, era lépido e esquivo). Quem não agarrou a mecha do like a perdeu para sempre. Quem não viralizou deverá recomeçar do início, ou se afogará num mar de esquecimento, como no poema de Camões.

A vida é monótona, porém. E as realizações são medíocres. Sobretudo, a capacidade de compreensão e explicação das coisas é limitada. Porém não importa. O importante é que, interagindo e convidando outros a nos verem (ou, às vezes, os forçando a isso), nos preenchemos de algum modo. Somos homens ocos e moles, somos sacos de tecido que só se tornam volumosos quando se abarrotam de grãos. Se os grãos são escassos, a vida nos mantém flácidos, opacos. Admiramos a todos e não admiramos a ninguém, pois no fundo sabemos que todos são iguais àquilo que somos 
sendo a interação a única chave para abrir o caixa da nova psique.

Atrair a atenção do outro — eis o desiderato, a converter-se em remédio ou panaceia universal para todas as solidões e incompletudes. Disso as redes nos fartam, mesmo ao custo de agravarem em nós uma ansiedade depressiva, misturada a um sentimento de eterna insuficiência. Por que não? Faz parte do esquema. Quem não pode jogar esse jogo — é o que devemos aprender — procure outro mundo para viver.

21/29-3-2026

 

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